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segunda-feira, 15 de março de 2021

OS PRONOMES POSSESSIVOS EM TEMPOS DE EMPODERAMENTO HUMANO

    Hoje eu estava discutindo em um grupo de amigos sobre uma postagem com o seguinte teor: "Aos Homens do Século 21: Não chame a mulher com quem se casou de "minha mulher". Diga o nome dela."

    Essa Postagem foi discutida nas redes sociais e, com muita propriedade, as pessoas concordaram com ela.

    De fato, para quem luta pela igualdade de direitos entre todas as pessoas, independente de gênero, classe social, credo, raça, etc., a nossa sociedade tem um ranço muito grande do patriarcado.

    Durante muito tempo as mulheres foram alvos das mais intensas e diversas formas de machimos, dentro da política, do campo jurídico, na fé e no meio social como um todo.

    Só lembrar, por exemplo, que o Estatuto da Mulher Casada (Lei nº. 4.121/1962) que entrou em vigência em 12 de outubro de 1962, reconheceu à mulher vários dos direitos que até então eram de titularidade do homem.

    Por exemplo, a mulher casada era considerada como incapaz pelo Código Civil de 1916 enquanto perdurasse o casamento, segundo art. 6º, II, daquele código.

    O marido era reputado como chefe da sociedade conjugal cujo texto do art. 233 era o seguinte:

    Art. 233. O marido é o chefe da sociedade conjugal.

    Compete-lhe:

    I. A representação legal da família.

    II. A administração dos bens comuns e dos particulares da mulher, que ao marido competir administrar em     virtude do regime matrimonial adaptado, ou do pacto antenupcial

    III. direito de fixar e mudar o domicílio da família

    IV. O direito de autorizar a profissão da mulher e a sua residência fora do tecto conjugal

    V. Prover à manutenção da família, guardada a disposição do art. 277.


    Se fóssemos destacar todos os pontos do Código Civil que coloca o homem em posição de superioridade, nós teríamos que fazer um Código Compilado ou cometado aqui.

    Mas não foi só na legislação que o homem estave nessa posição de superioridade. Basta lembrar que o sufrágio feminino foi permitido qm 1932, com o Código Eleitoral daquele ano, editado por GV.

    Não raras vezes nós nos deparamos com mulheres nascidas por volta da metade do século passado que foram impedidas ou desestimuladas de estudar, porque culturalmente a mulher era condicionada por sua propria mãe a ser dona de casa, cuidar dos filhos e servir o marido, como uma replicação dessa condição de inferioridade imposta.

    De lá para cá muitas conquistas foram conseguidas pelas mulheres na luta pela igualdade de direitos. 

    Mas ainda há uma reação meio sem sentido que acredita que o movimento feminista quer a superioridade das mulheres em relação ao homem. Isso causa medo e desconforto àqueles que foram criados para mandar, para dominar, para brilhar.

    Sempre digo em minhas aulas que não devemos confundir o movimento feminista, que é a luta por igualdades de direitos, com o movimento femista, que visa colocar as pessoas do gênero feminino em péde igualdade.

    Mas voltando ao tema que me faz tecer essas breves linhas, ouvi da Elisa - a mulher com quem me casei, (que é do movimento feminista, que está no grupo das mulheres nas ciências criminais e combate o machismo e o patriarcado dentro do movimento) que eu sou mais feminista que ela.

    Não acho que sou mais feminista, mas acho que também sou feminista. Sou contra o racismo. Contra a violência institucional. Sou contra a desigualdade social. São tantas lutas que temos que lutar para fazer valer nossos direitos e evidenciar nossa condição humana que às vezes até cremos que nossa luta não tem resultado algum.

    Mas a perseverança é o motor que nos move na busca pela igualdade de todos os direitos entre todas as pessoas.

    Particularmente, eu não acho que o homem do século XXI não pode chamar a mulher com quem se casou de "Minha". Pode sim, desde que isso seja plenamente comungado pela parceira, que também pode chamar o marido de "Meu".

    Acho que aqui um dos maiores problemas é entramos na esfera de intimidade e de felicidade dos casais.

    Meus quase 20 anos de união me fazem concluir que quando eu chamo a mulher com que me casei de minha, muito mais do que um pronome possessivo é a interação e intimidade que temos. também não me incomodo de ser chamado de "meu". "Meu marido". Não nos constrange.

    A análise fria das categorias gramaticais que podem indicar a perpetuação do patriarcado acaba se chocando com o calor do amor e da intimidade do casal.

    Nós combatemos a intromissão do Estado na vida privada, mas não conseguimos ver que talvez essas manifestação contra o patriarcado também acabem adentrando na esfera da mais íntima cumplicidade de um casal.

    Acho que temos que fazer esse contraponto: nem sempre o uso de um pronome possessivo indica uma forma de machismo. Se decorre da autonomia de vontade e serve para aquecer os corações do casal, talvez seja só amor mesmo.

Alguns dirão que é o machismo travestido de amor. E eu direi: Foda-se. Vai chamar o homem ou a mulher com que se casou pelo nome e deixa os outros serem felizes.

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